A resposta curta: na era da IA, o valor da agência ficou mais claro, e é por ele que ela cobra. Uma inteligência artificial monta uma lista de dias e hotéis em minutos, mas o cliente continua procurando numa agência quatro coisas que a lista não dá: segurança de que a viagem vai dar certo, a expertise de quem conhece o destino, a curadoria de quem escolhe por ele e o tempo que ele deixa de gastar. Para saber quanto cobrar por esse trabalho, some as horas que a viagem vai consumir, multiplique pelo valor da sua hora e desconte o que as comissões dos fornecedores já pagam. O que faltar vira a sua taxa de serviço, combinada antes de começar e mostrada no orçamento numa linha própria.

Essa conta é a parte fácil. A difícil é a conversa com o cliente que chega dizendo que a IA já montou o roteiro de graça, ou que a outra agência não cobra nada. É nessa hora que a agência precisa saber dizer, com segurança, qual é o seu valor.

No fim do texto, eu mostro o que responder nesses dois casos e como saber, viagem por viagem, quando vale dispensar a taxa.

O guia de como criar propostas e roteiros de viagem que vendem mostra como a proposta convence o cliente. Aqui o assunto é como a agência é paga pelo valor que entrega.

Qual é o valor da agência na era da IA

Hoje é comum o cliente chegar com um roteiro pronto. Ele pediu para uma IA, recebeu dez dias de passeios e hotéis em dois minutos e quer entender por que pagaria uma agência. E esse cliente já é maioria: metade dos brasileiros usa inteligência artificial para planejar as férias, segundo uma pesquisa da Adyen de 2025 (dados publicados pelo PANROTAS).

A primeira reação de muita agência é achar que perdeu valor. Na prática, a IA deixou mais claro onde ele sempre esteve. A lista de dias e hotéis ficou barata. O que o cliente procura numa agência continua difícil de conseguir sozinho, e cabe em quatro palavras.

Segurança. O cliente quer ter certeza de que a viagem vai dar certo e de que alguém responde por ela. É o que a IA ainda não passa: numa pesquisa da Booking.com de 2025 (dados publicados pelo PANROTAS), só 12% dos brasileiros disseram confiar totalmente na IA, e só um em cada cinco aceita que ela decida sozinha.

Expertise. Saber o que a busca não mostra: o hotel bem avaliado que fica longe de tudo, o passeio que lota na alta temporada, a conexão curta demais para quem viaja com criança.

Curadoria. Escolher pelo cliente. Entre centenas de opções, apresentar as poucas que combinam com ele, e dizer por quê.

Tempo. O cliente troca noites de pesquisa e conferência por uma conversa com quem já sabe o caminho.

A tendência do setor vai nessa direção. O Censo Abav 2025, feito com 697 agências, descreve uma passagem da intermediação para a curadoria (dados publicados pelo PANROTAS). Lá fora, a aliança que reúne as associações de agências do mundo todo resume a mesma mudança: o agente passa a ser valorizado mais pelo que sabe do que pelo que reserva.

O que ficou para trás foi o jeito de ser pago por esse valor. Por décadas, quem pagou o trabalho da agência foi a comissão dos fornecedores, e o roteiro saía de graça. Essa comissão vem encolhendo: as companhias aéreas deixaram de pagar comissão às agências em 2007, como mostra um estudo da Escola Nacional de Administração Pública, e em 2024 a Localiza cortou a sua pela metade, de 10% para 5%, segundo o Mercado & Eventos.

Juntando as peças: o valor da agência está mais claro do que nunca, mas quase sempre ainda é pago de forma indireta. Por isso a pergunta sobre quanto cobrar pelo roteiro pula uma etapa. Antes dela vem outra: quanto cada viagem precisa render para pagar esse valor.

Por que as formas de sempre escondem esse valor

Diante disso, as agências costumam cobrar de um de três jeitos. Todos fazem sentido, e todos deixam parte do valor da agência sem aparecer.

Continuar dando o roteiro e viver da comissão

É o modelo mais conhecido: o cliente não paga nada pelo roteiro, e a agência ganha a comissão do que ele comprar. A conversa fica leve e ninguém fala de taxa.

O problema é que, para o cliente, o trabalho parece de graça, e a comissão não depende de você. O fornecedor decide quanto paga e pode mudar quando quiser. Quem leva o roteiro para reservar sozinho não paga nada pelas suas horas. E uma viagem cheia de pousadas e guias locais pode render menos que um pacote pronto, dando três vezes mais trabalho.

Embutir a remuneração no preço dos itens

O segundo caminho é aumentar um pouco o preço de cada item, o chamado markup. O cliente vê um preço só e não há conversa sobre taxa.

Funciona em item que o cliente não acha sozinho, como um passeio privativo com guia em português. O hotel, ele acha. Basta uma busca na internet, e a diferença que pagava a sua expertise vira prova de que a agência é cara.

Cobrar pelo roteiro como produto

O terceiro caminho é cobrar pelo documento, por roteiro ou por dia de viagem, como fazem as consultoras que vendem só o planejamento.

Na era da IA, é o caminho mais frágil, porque põe preço justamente na parte que o cliente consegue de graça, e deixa de fora a segurança e a curadoria, que ele não consegue. Para quem também vende a viagem, ainda ignora a comissão que já entra: na viagem simples, o cliente acaba pagando duas vezes.

O que isso custa

Você trabalha mais e ganha menos. As viagens mais trabalhosas costumam ser as que pagam menos comissão.

O seu roteiro vira rascunho grátis. O cliente leva o desenho da viagem para reservar sozinho ou para outra agência cotar igual.

O seu valor fica invisível. Se o cliente só vê preço, ele compara a agência com a IA e com quem não cobra, e o desconto passa a parecer a única saída.

A agência cobra pelo valor que o cliente não consegue sozinho

A regra que sai disso vale para qualquer agência e qualquer forma de cobrar: cada viagem precisa render o suficiente para pagar as horas que a agência dedica a dar segurança, expertise, curadoria e tempo ao cliente, e comissão, markup e taxa de serviço são três jeitos de chegar a esse valor.

Fica concreto quando você compara o que a IA entrega com o que só a agência entrega:

ValorO que a IA entrega em minutosO que a agência entrega
CuradoriaUma lista de hotéis bem avaliadosO hotel certo para aquele cliente, e o motivo da escolha
ExpertiseUma sugestão de roteiro dia a diaHorários, distâncias e detalhes conferidos por quem conhece o destino
SegurançaPreços de referênciaReserva feita, tarifa garantida e alguém para chamar quando o voo atrasa
TempoMais opções para o cliente conferir sozinhoA decisão pronta, numa conversa

A agência cobra pela coluna da direita, e é ela que precisa aparecer em cada conversa. Com isso, a pergunta muda: em vez de quanto vale o roteiro, quanto custa entregar esse valor e quanto dele os fornecedores já pagam.

As três formas de a agência ser paga

A Lei Geral do Turismo prevê as três no art. 27, e elas podem conviver na mesma viagem. Desde 2024, a mesma lei diz que planejar a viagem faz parte do serviço da agência.

FormaQuem pagaQuando funciona bem
ComissãoO fornecedor, sobre o que você vendeViagens simples, com fornecedores que pagam comissão
Markup (margem sobre o custo)O cliente, dentro do preço de cada itemPasseios e traslados que o cliente não acha sozinho
Taxa de serviçoO cliente, numa linha separadaViagens trabalhosas, com fornecedores que não pagam comissão

Seja qual for a forma, o cliente precisa saber antes. O Código de Defesa do Consumidor pede informação clara sobre o preço. E como tudo isso é receita da agência, vale combinar com o seu contador como cada parte entra na nota fiscal.

Como calcular quanto cobrar

A conta tem três passos. Os números do exemplo são inventados, só para mostrar o método.

1. Descubra quanto vale a sua hora

Some os gastos fixos do mês, como aluguel, sistemas, contador e telefone, e o quanto você precisa tirar para viver. Divida pelas horas que você realmente dedica a viagens que viram venda. É o método que o Sebrae ensina para precificar serviços. No exemplo, R$ 9.000 por mês divididos por 100 horas dão R$ 90 por hora.

2. Conte as horas da viagem inteira

Pense no casal do modelo de orçamento de viagem, Helena e Marcos, dez noites em Portugal:

EtapaHoras
Conversa inicial1
Pesquisa e cotação4
Montar o roteiro e o orçamento2
Ajustes1,5
Reservas e pagamentos2
Documentos e vouchers1
Atendimento antes e durante a viagem2,5
Total14

Repare que montar o documento, a parte que a IA faz em minutos, leva só 2 dessas 14 horas. As outras 12 são o valor da agência em forma de trabalho: escolher e cotar, ajustar, reservar e estar disponível durante a viagem. Para encurtar a pesquisa e a montagem, veja como montar roteiro de viagem personalizado mais rápido.

3. Desconte o que os fornecedores já pagam

São 14 horas a R$ 90, ou R$ 1.260. Com imposto e lucro, que no exemplo somam 30% do que entra, a viagem precisa render R$ 1.800. Os hotéis e o seguro pagam R$ 1.150 de comissão. Faltam R$ 650, e esse é o valor da sua taxa de serviço. Se preferir, dá para cobrar o mesmo valor como margem nos passeios e traslados.

Agora compare com uma semana num resort, comprada de uma operadora. São 3 horas de trabalho, e a comissão da operadora já paga mais do que isso:

ResortPortugal
Horas de trabalho314
A viagem precisa renderR$ 386R$ 1.800
Comissões dos fornecedoresR$ 1.400R$ 1.150
Taxa de serviçonenhumaR$ 650

No resort, cobrar taxa seria cobrar duas vezes. Em Portugal, não cobrar seria trabalhar de graça. Por isso nenhum valor fixo de taxa serve para todas as viagens.

Quanto cobrar em cada tipo de viagem

A conta vale para qualquer viagem, mas alguns padrões se repetem. Use a tabela como ponto de partida:

Tipo de viagemComo o trabalho costuma ser pago
Pacote de operadora, com poucos ajustesA comissão costuma bastar
Roteiro com hotéis e passeios que pagam comissãoComissão, completada por margem nos passeios
Roteiro em várias cidades, com fornecedores diretosTaxa de serviço, combinada antes
Passagem aéreaTaxa de emissão, porque o aéreo não paga comissão
Casamento, aniversário ou grupoTaxa de projeto, com uma parte no início
Só o roteiro, o cliente reserva sozinhoConsultoria, paga antes da entrega

Como as agências lá fora estão cobrando pelo seu valor

Em outros países, cobrar pelo conhecimento já virou comum. Um estudo de 2025 da WTAAA, a aliança das associações de agências, mostra que mais da metade das agências dos Estados Unidos e cerca de dois terços das europeias já cobram taxa, quase sempre somada à comissão. Na Nova Zelândia, onde as companhias aéreas cortaram a comissão, são quase todas.

O jeito de cobrar lembra o de outras profissões que vendem conhecimento: um sinal pago na primeira consulta, um preço fechado para roteiros complexos e até assinatura para quem viaja muito.

Na América Latina, diz o estudo, o costume ainda é embutir a remuneração no preço, mas as agências de luxo já começaram a vender consultoria. E onde a mudança aconteceu, o começo teve resistência. O que fez diferença foi explicar com clareza o valor que a taxa cobre.

Como apresentar a taxa de serviço

A taxa bem aceita é a que mostra o valor da agência antes de mostrar o preço. Três momentos decidem isso.

Na primeira conversa

Antes de começar a montar, conte como você trabalha, diga o que o cliente ganha e dê uma faixa de valor:

Antes de começar, te conto como eu trabalho. Para uma viagem como essa, com três cidades e tudo sob medida, eu cobro uma taxa de serviço que deve ficar entre R$ 600 e R$ 700. Ela cobre a escolha de cada hotel e passeio, os ajustes até ficar do jeito de vocês, as reservas e alguém cuidando de tudo durante a viagem. Vocês não perdem tempo pesquisando e viajam tranquilos.

No orçamento

A taxa aparece numa linha própria, perto do total, com o valor que ela entrega escrito no nome, como "Taxa de serviço: curadoria, reservas e atendimento durante a viagem". O lugar dela no orçamento está no modelo de orçamento de viagem para agência.

Na hora de receber

Quanto maior o risco de o roteiro não virar venda, mais cedo vale cobrar:

SituaçãoQuando cobrar
Cliente antigo, viagem simplesNo fechamento, junto com o sinal
Cliente novo, viagem trabalhosaUma parte antes de montar, descontada se ele fechar
Cliente que só quer o roteiroTudo antes da entrega

A parte cobrada antes funciona como o sinal de consulta das agências lá fora: separa quem quer viajar de quem está só colecionando orçamentos.

Erros que fazem a agência trabalhar de graça

  • Deixar o valor implícito. Quem não fala de segurança, expertise e curadoria deixa o cliente comparar só preço.
  • Competir com a IA pelo documento. A taxa se sustenta no trabalho de escolher, reservar e atender, que fica fora de qualquer roteiro, por mais completo que ele seja.
  • Copiar a taxa de outra agência. A taxa dela paga as horas dela, com os fornecedores dela.
  • Esconder a taxa no preço do hotel. O cliente acha o mesmo hotel mais barato na internet e perde a confiança.
  • Dar desconto sem olhar a conta. O desconto pode sair justamente da viagem que mais deu trabalho.

Perguntas frequentes sobre quanto cobrar por roteiro de viagem

Quanto cobrar por um roteiro de viagem personalizado?

Depende das horas que a viagem vai consumir e de quanto os fornecedores já pagam de comissão. Multiplique as horas pelo valor da sua hora, some imposto e lucro e desconte as comissões. O que faltar é a sua taxa de serviço, que por isso muda de uma viagem para outra.

Qual é o valor de uma agência de viagens na era da IA?

Segurança, expertise, curadoria e tempo. A IA monta uma lista de dias e hotéis em minutos, mas o cliente ainda quer alguém que conheça o destino, escolha por ele, responda pela viagem e poupe as horas de pesquisa. É esse valor que a agência precisa mostrar na conversa e no orçamento, e cobrar.

Vale cobrar taxa de serviço se o cliente pode montar o roteiro com IA?

Vale, porque a taxa paga o trabalho que a lista da IA não faz: escolher, conferir, reservar e atender durante a viagem. E o cliente ainda desconfia da IA: numa pesquisa da Booking.com de 2025, só 12% dos brasileiros disseram confiar totalmente nela. O roteiro que ele trouxe pode ser o ponto de partida da conversa.

Agência de viagens pode cobrar taxa de serviço?

Pode. A Lei Geral do Turismo, a Lei 11.771 de 2008, prevê que a agência seja paga por comissão, por margem sobre o custo dos serviços e por taxa de serviço cobrada do cliente. O Código de Defesa do Consumidor pede informação clara sobre o preço, então a taxa precisa ser combinada antes da compra.

Qual a diferença entre comissão, markup e taxa de serviço?

Comissão é o que o fornecedor paga à agência sobre o que ela vende. Markup é a margem que a agência coloca sobre o custo de um item antes de passar o preço ao cliente. Taxa de serviço é o valor que o cliente paga direto pelo trabalho da agência, numa linha separada do orçamento.

Como cobrar do cliente que só quer o roteiro e vai reservar sozinho?

Como consultoria, com o valor inteiro combinado e pago antes da entrega, porque não vai haver comissão depois. Uma forma prática é cobrar por dia de viagem, com um valor mínimo por roteiro. Deixe escrito o que está incluso, como o número de ajustes e se há atendimento durante a viagem.

Outras dúvidas estão nas perguntas frequentes, e termos como curadoria, comissionamento, markup e sinal estão no glossário do agente de viagens.

Quando o cliente diz que a IA faz de graça, ou que a outra agência não cobra

No começo eu disse que ia mostrar o que responder nesses dois casos, e quando vale dispensar a taxa. Nos dois, a resposta é a mesma: mostrar o valor, sem defensiva.

Quando o cliente chega com um roteiro da IA, não dispute o documento. Use-o a seu favor. Ele mostra o que o cliente imagina e o ritmo que ele quer, e isso adianta a conversa:

Que bom que você já pesquisou, isso adianta muito. A partir desse roteiro, eu escolho os hotéis que conheço, confiro horários e distâncias, faço as reservas e fico com vocês durante a viagem, se um voo atrasar ou um passeio for cancelado. Vocês viajam tranquilos, e é isso que a minha taxa cobre.

Quando ele diz que a outra agência não cobra, lembre que toda agência é paga de algum jeito. A que não cobra taxa recebe pela comissão ou pela margem embutida no preço de cada item. Sem criticar ninguém, mostre o que a sua taxa cobre:

Entendo, e faz sentido comparar. Toda agência é paga de algum jeito: pela comissão dos fornecedores, por uma margem no preço dos itens ou por uma taxa. Eu deixo a minha separada para você ver exatamente o que ela cobre. Se quiser, olhamos os dois orçamentos lado a lado, item por item.

E quando vale dispensar a taxa? A resposta está na conta daquela viagem. Se as comissões já pagam as horas, como no resort, dispensar não custa nada e pode fechar a venda. Se não pagam, como em Portugal, dispensar é trabalhar de graça, e o melhor é mexer no escopo ou na forma de pagar antes de mexer no valor. A regra cabe numa frase: dispense a taxa só quando a conta da viagem deixar.

Tudo isso funciona com uma planilha. O difícil é ter a conta na mão na hora em que o cliente pede para tirar a taxa ou trocar o hotel, e é aí que o MyConcierge entra. Em cada viagem, você registra o custo de cada hotel, voo e passeio ao lado do preço de venda e vê a margem de cada item e da viagem inteira enquanto monta. Nada disso aparece na proposta que o cliente recebe. A taxa de serviço entra na forma de pagamento como uma linha própria, com nome e valor. Quando o cliente pede uma mudança, você vê na hora quanto a viagem passa a render. Dá para ver como o cliente recebe a proposta nos exemplos de roteiro.

Se quiser ver quanto cada viagem rende enquanto monta, o MyConcierge tem teste grátis por 10 dias, sem cartão. Monte lá a próxima viagem que um cliente pedir, com o custo de cada item, e compare com a conta das horas antes de mandar o orçamento.